Aprender a ler e fazer contas muda o cérebro da criança? Entenda o papel dos estímulos na infância



 Psicopedagoga explica como leitura, jogos e atividades de raciocínio contribuem para o desenvolvimento de habilidades cognitivas

Aprender a ler e desenvolver o raciocínio matemático envolve muito mais do que memorizar letras, números e operações. Durante a infância, essas aprendizagens mobilizam diferentes habilidades cognitivas, como atenção, linguagem, memória, interpretação, planejamento e resolução de problemas. Um estudo publicado em 2026 acompanhou crianças no início da escolarização e identificou mudanças em regiões cerebrais relacionadas à leitura e à matemática ao longo do processo de aprendizagem.


Segundo Virgínia de Castro, psicopedagoga da Maple Bear Brasília e especialista em Neurociência e Educação, experiências de leitura, jogos e desafios de raciocínio ajudam a fortalecer conexões utilizadas em aprendizagens cada vez mais complexas. Quando essas atividades acontecem também na interação com familiares e outras crianças, podem ampliar o vocabulário, a criatividade, a capacidade de compreender diferentes pontos de vista e as habilidades sociais.


A leitura começa antes mesmo de a criança conseguir ler sozinha. Conversar sobre uma história, perguntar o que aconteceu, relacionar acontecimentos e incentivar a criança a explicar o que entendeu são formas de trabalhar compreensão e interpretação.


“Ler não é apenas decodificar letras e transformar aquilo em som. A criança precisa compreender, fazer relações, identificar informações importantes e construir sentidos a partir do texto. Quando ela conversa sobre uma história e tenta explicar o que aconteceu, já está exercitando a capacidade de resgatar informações e conectar ideias”, explica Virgínia.


Esse contato frequente também ajuda a desenvolver a atenção. Ao acompanhar uma narrativa, a criança precisa selecionar informações, entender relações entre acontecimentos e fazer inferências para compreender o conteúdo.


Raciocínio matemático não se resume a fazer contas


Outro ponto que merece atenção é a forma como a matemática é apresentada na infância. Associar números a quantidades e aprender operações básicas são apenas parte desse processo. Observar padrões, comparar, organizar informações, compreender relações e encontrar estratégias para solucionar problemas também fazem parte do raciocínio matemático.


“O pensamento matemático envolve muito mais do que números e operações. Quando a criança tem contato desde cedo com situações que exigem observação, comparação, reconhecimento de padrões e compreensão de relações, ela constrói uma base que pode ajudá-la a acompanhar conteúdos mais complexos posteriormente”, afirma.


Jogos podem complementar o aprendizado


Jogos de lógica, tabuleiro e estratégia também podem contribuir para o desenvolvimento cognitivo. Dependendo da atividade e da faixa etária, eles trabalham atenção, memória, planejamento, flexibilidade de pensamento e resolução de problemas.


“Os jogos podem ser ferramentas importantes para o desenvolvimento de funções cognitivas e executivas, mas não substituem completamente momentos mais formais de aprendizagem. A repetição e a prática também são necessárias para consolidar determinados conhecimentos. Uma estratégia complementa a outra”, explica.


Para que leitura e jogos façam parte da rotina, a especialista destaca ainda a importância de criar experiências positivas. Ler junto, contar histórias, permitir que a criança escolha um livro ou comemorar pequenas conquistas pode ajudar a associar essas atividades a momentos de prazer e segurança.


“A aprendizagem passa pela emoção. No início, o que torna a leitura prazerosa pode ser o colo, a presença de quem a criança gosta e a interação durante a história. Com o tempo, esse prazer pode ser associado à própria atividade, até que ela consiga encontrar satisfação na leitura de forma autônoma”, afirma Virgínia.


Uso passivo de telas pode ocupar espaço de experiências


A preocupação não está apenas no tempo diante das telas, mas também no que a criança deixa de fazer por causa desse uso. Assistir repetidamente a vídeos ou conteúdos prontos exige uma participação cognitiva diferente daquela necessária para ler, jogar ou solucionar um problema.


“Quando a criança participa de uma leitura ou de um jogo, precisa interpretar, fazer relações, criar estratégias, planejar ações, esperar, lidar com regras e controlar impulsos. Por isso, mais do que pensar apenas em proibir as telas, é preciso observar se o uso passivo está ocupando o espaço de experiências que exigem uma participação mais ativa da criança”, orienta Virgínia.


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