*Artigo escrito por Fabiana Ratti
O aparelho psíquico - o emocional - sente-se muito mais confortável com aqueles que são semelhantes. Pense em como é fácil conversar com quem é do mesmo time de futebol, quem gosta dos mesmos assuntos, tem os mesmos valores, tem filhos ou estudou no mesmo colégio que você.
Em toda empresa, os profissionais sentem como é fácil trabalhar com quem, de alguma forma, fala a mesma língua. Ou seja, quando os profissionais têm uma certa identificação - flui. Mas todos falam que sempre há um ou outro profissional com quem tudo é travado e com quem o trabalho não flui.
Existem recursos emocionais para que as pessoas consigam se conectar e trabalhar juntas. O pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939) publicou "Psicologia das massas e análise do eu" em 1921 e deu diversas dicas partindo da ideia de que, para alguém ouvir e enxergar o outro, não adianta existir apenas biologicamente um na frente do outro. É preciso um laço emocional que faça a ligação afetiva e coloque a roda para girar.
Neste artigo, Freud diz que "a identificação é a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa" e que, sem esse laço, o ser humano não vê o outro de fato, não o reconhece. A pessoa olha, mas não vê; escuta, mas não ouve. Muitos do mundo corporativo, na análise, dizem que falam várias vezes, e o funcionário não obedece e não entrega no prazo. Por isso, sente como se falasse ao vento.
Isso acontece por não haver nem o menor laço de ligação. O funcionário nem o considera para ouvi-lo. O que fazer, então?
É necessário criar esse laço para a roda girar no trabalho. Sem identificação por um personagem ou um assunto de um filme, uma série ou um livro, a pessoa para de acompanhar aquele conteúdo. Ela não cria vínculo. Não tem empolgação para continuar.
Freud explica que, a partir da identificação, é possível construir um ideal. Um vir-a-ser. É o que as pessoas comumente chamam de admiração e respeito. É assim também que se criam laços afetivos mais profundos, que avançam para parcerias e amizades.
Desta forma, caso haja alguém em seu meio de trabalho que pareça totalmente desconectado das relações políticas empresariais, das entregas e dos diálogos, tente pensar sobre o que essa pessoa gosta. Questões simples como comida, hábitos, roupas, pets ou algum jogo específico. Puxe assunto, fale, ria. Mostre que entende. Troque fotos. Coloque-se como igual a ele, crie a identificação.
Não adianta apenas discutir trabalho sem que o menor laço emocional exista, porque tudo fica muito mais difícil, gerando sintomas e dificuldades no trabalho. O aparelho psíquico é simples. Mas, para tudo funcionar, ele precisa se sentir visto e incluso.
* Com mais de 25 anos de experiência na Psicanálise, Fabiana Ratti é psicóloga, mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e autora do livro " Café com Freud e Lacan - Liderança e laços afetivos e políticos no cotidiano e no mercado de trabalho"
Com informações de LC - Agência de Comunicação

