“Você sabe com quem está falando?”: A corrupção sistêmica nos órgãos públicos

  *Julio Medeiros

Foto: Pexels


É muito comum ouvir uma frase assim no nosso país. Igualmente comum é ver ou ouvir que fulano "deu uma carteirada" para se livrar de algum problema ou auferir algum privilégio em determinada situação.


Esta é apenas a "ponta do iceberg" de um problema que, de tão entranhado na cultura brasileira, muitos não dão conta de sua estranheza, ou melhor, de sua deformidade.


No Brasil, confunde-se o que é público e o que é privado com frequência e naturalidade inauditas. É praxe, entre os políticos, a oferta de cargos públicos, assim como a nomeação de parentes e congêneres para o exercício de "cargos de confiança" em todas as esferas do poder. Neste contexto, não é igualmente estranho flagrar um motorista de órgão público levando os filhos da "autoridade" para a escola ou fazendo supermercado para o "patrão".


Essa herança nefasta vem de longa data. Podemos pontuar, pelo menos, dois fatos. O primeiro foi quando a família real se transferiu para o Brasil. Toda a estrutura administrativa foi criada "a toque de caixa" para atender às necessidades da realeza, bem como para acomodar o séquito de nobres e o alto funcionalismo civil e militar que a seguiram.


O segundo aconteceu quando, posteriormente, na passagem do país da Monarquia para a República, o processo ocorreu mediante negociações destinadas à preservação de privilégios conquistados durante o regime monárquico. Manteve-se, por exemplo, a centralização do poder, o patrimonialismo e o poder das elites agrárias, também chamado de coronelismo.


Nessa confusão hedionda de um país que esqueceu de comprar o ingresso para o futuro, um vereador, prefeito, deputado, presidente, bem como policiais, juízes e fiscais — mesmo que aprovados por concurso público —, em grande parte, perderam a noção de que não passam de servidores públicos. Esquecem-se de que a autoridade que lhes é conferida existe para o exercício do cargo. Fora disso, são cidadãos com iguais direitos e deveres perante a lei (artigo 5º, caput, da Constituição Federal do Brasil de 1988).


Dessa forma, entre escândalos de corrupção diários e notícias de impunidade na mesma frequência, caminhamos para mais um pleito eleitoral — ou deveríamos chamá-lo de dança das cadeiras? Pois é disso que se trata. O povo — ou gado — é chamado para dar aparência de legitimidade à manutenção das oligarquias estabelecidas e homologar essa pseudodemocracia.


Não vejo nenhum político, de qualquer viés ou ponto cardeal (criação minha), sustentar proposta séria que implique em mudanças reais e efetivas. Exemplos: sou funcionário público e, para exercer minha função, tive de comprovar escolaridade, bem como ser aprovado em concurso público. 


Por que os políticos não precisam provar nada? Prefeituras, estados e governo federal são lotados de "ilustres" sem formação adequada ou comprovação de conhecimento para o exercício do cargo. Basta ter boa conversa? Quanto ao Supremo Tribunal Federal, por que os ministros não são nomeados dentre os juízes de carreira?


Esse tipo de coisa ninguém propõe seja à direita, à esquerda ou em qualquer outro espectro, porque isso traria instabilidade para as oligarquias, às famílias estabelecidas no poder, aos amigos do rei.


Enfim, bem-vindo à terra avistada pela luneta do navegador; terra de grandes auspícios, terra que mana leite e mel e que, de tão fecunda, sobrevive a nós.


* Julio Medeiros é funcionário público federal aposentado, escritor, poeta e autor dos livros “Nátaly e Vitor” e “A história do serviço público no Brasil”


Com informações de LC - Agência de Comunicação.

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